ATOS ALVES DE SOUZA

18/02/1947 – 17/11/2013

HOMENAGEM DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE NEUROCIRURGIA A DR. ATOS ALVES DE SOUSA

- Atos Alves de Sousa (18/02/1947 – 17/11/2013)
 
No dia 17 de novembro de 2013, às 23 horas e 45 minutos, parou de funcionar o cérebro que de forma genial restabelecia a função de cérebros. Morreu Atos Alves de Sousa, o maior neurocirurgião de Minas e um dos expoentes máximos da neurocirurgia brasileira e mundial.

Atos graduou-se em medicina em 1972. Após especialização em universidades europeias, iniciou vertiginosa atividade neurocirúrgica na Santa Casa de Belo Horizonte. Transformou esse hospital em um dos principais centros de excelência da neurocirurgia brasileira. Rapidamente, seu nome ultrapassou as fronteiras do país e ele tornou-se neurocirurgião do mundo, com estadias frequentes em vários países de todos os continentes para aulas e cirurgias.

Três particularidades definiram Atos como grande médico, um gênio da neurocirurgia: o amor pelo ser humano, a paixão pelo trabalho e a persistência na aquisição da técnica apurada.

Atos era amoroso, afetuoso, generoso, acolhedor, protetor, amigo. A essência da medicina é o amor pelo ser humano. Quando a maestria de sua técnica chegava ao limite, Atos a expandia com a atenção e o conforto a seus pacientes, que o amavam intensamente. A cena mais chocante em seu velório, ao mesmo tempo triste e bela, foi o grupo de uma dezena de pacientes, por ele operados, em círculo em torno de seu corpo, chorando o fim da vida daquele que lhes tinha salvo a vida.
Sem paixão não se faz nada de grande na vida. Com paixão, Atos levou seu ofício às raias da perfeição, transformando-o em arte. E sua felicidade era encontrar nessa arte o prazer.

Era esta paixão que fazia este virtuoso do bisturi perseguir a perfeição do gesto simples, elegante, preciso. Sua mão gentil, de artista chinês em porcelana da era Ming, tocava o cérebro como um sacerdote toca um ícone sagrado.

Com muita arte, Atos reparava o cérebro, a matéria mais elaborada do universo, o templo de todas as artes. Sua cirurgia não era guerra contra a doença, mas delicada interação com a lesão. E esta saía quase pacificamente, com pouco derramamento de sangue.

Nossa arte reflete nossa vida, pois nada pode sair do artista que não esteja no homem. A beleza da arte cirúrgica de Atos era simplesmente reflexo de sua bela mente.
É comum, a genialidade se associar ao gênio irascível e orgulhoso. Atos, apesar do reconhecimento mundial como mestre e ícone da neurocirurgia, era comedido, modesto e humilde. Ou seja, alcançou a sabedoria ao associar a fina técnica à arte de bem viver. Este paradoxo do profissional genial na pele do homem simples e afetuoso encantou seus pares nos quatro cantos do mundo. Atos partiu carregado de amigos e admiradores.

Afirma-se que homem algum é insubstituível. Mas, como substituir um Miquelângelo que esculpia vida no mármore? Como substituir um Atos que com técnica apurada esculpia o cérebro para restituir-lhe forma e função? Não se substitui Miquelângelo ou Atos e nem é necessário, pois eles vivem em suas obras e naqueles que se inspiram em suas artes. Atos continuará vivo, iluminando a neurocirurgia brasileira.

O importante não é o nascimento ou a morte, mas a travessia pela vida. O que nos resta de Atos não são suas cinzas, mas a chama de sua vida vitoriosa.
A passagem bíblica do profeta Ezequiel mostra o significado da imortalidade para aqueles que tiveram vida útil e frutífera, quando o criador afirma: farei de vossos túmulos berço de vidas. Vidas continuarão a ser salvas através dos ensinamentos de Atos e das mãos de seus discípulos.

O que nos choca é ver majestosa árvore carregada de frutos, e fadada a várias florações, ser decepada abruptamente. Atos saiu de nossas vidas de forma inesperada. Como num encantamento. Parece que ele continua encantado entre nós. E continua como sempre foi, encantador.



Querido Atos,
Tua vida se resumiu em levar vida a teus pacientes e alegria a teus familiares e amigos. Te perdoamos por hoje nos fazer chorar. Mas não choramos por ti. Choramos por nós mesmos, pela falta que tu nos faz. Mas a dor de tua ausência nunca será maior do que a alegria de tua presença entre nós.
Tua morte é tuas núpcias com a eternidade; apenas uma mudança de palco. Continuarás vivendo nos cérebros daqueles que te amam e nos cérebros que tuas mãos salvaram.

Sebastião Gusmão
Presidente SBN